Mar Vermelho 2006


Data:

5 a 9 de Setembro de 2006

Local:

Egipto - Sharm El Sheik

Participantes:

Manuel Leotte

João Pedro Freire

Pedro Ivo Arriegas

Para variar das habituais águas escuras e frias, decidimos rumar no início de Setembro de 2006 ao Mar Vermelho para, num ambiente descontraído, olear rotinas inerentes a mergulhos profundos com a utilização de várias misturas gasosas. Em Sharm El Sheik reunimo-nos com o Manuel Leotte, em cuja casa ficámos durante uma semana.

Após uma noite mal dormida, com viagens de automóvel e de avião pelo meio, adaptação ao clima, ao fuso horário e à alimentação, o primeiro mergulho serviu para tomar o pulso ao consumo de gás e à forma física e para pequenas aferições de lastro e configuração. Só assim poderíamos ter a certeza que nos mergulhos seguintes (mais fundos e mais longos) tudo estaria ao nível exigido.

Iniciámos a semana no canyon de Thomas Reef, o mais pequeno recife do Estreito de Tiran. Foi um mergulho calmo, com uma visibilidade horizontal na ordem dos 50 metros, deslumbrante em termos de paisagem, com passagens por baixo dos arcos de pedra que cobrem algumas secções da falha. Aí atingimos os -74 metros, iniciando a subida aos 14 minutos. O mar estava um pouco picado por acção do vento e na parte final do mergulho, nos últimos patamares de descompressão, tivemos também de lidar com a usual corrente local. Passados 80 minutos estávamos a pôr as cabeças fora de água, junto às bóias de patamar.

Como era expectável, as alterações à rotina quotidiana pesaram no consumo de gás, que foi mais elevado do que o normal, algo que com o correr dos dias se veio a dissipar.

Para uma temperatura a rondar os 24º C, e tendo em consideração as profundidades que prevíamos atingir, pareceu-nos indicado o uso de fatos semi-secos, mas só a continuação da série de mergulhos ao longo da semana viria a confirmar que de facto o isolamento térmico escolhido era o adequado para evitar uma hipotermia acumulada.

No dia seguinte o objectivo era já mais ambicioso. Sempre mimados pela prestável tripulação do Chic II dirigimo-nos para Sul, em direcção à Ponta do Sinai, com a ideia de percorrer a vertente que se afunda sob o sobranceiro Shark Observatory. O local deve o seu nome à presença, outrora frequente, de tubarões junto à superfície das águas, os quais no presente, face à crescente pressão humana, já só ocasionalmente nos brindam com um encontro fortuito. Ainda assim avistámos um pequeno tubarão de recife de pontas brancas (Triaenodon obesus), arisco e inofensivo. Sem corrente e com excelente visibilidade, descemos aos -87 metros, onde nos demorámos até aos 14 minutos, aproveitando depois a lenta subida em descompressão para gozar a bem decorada parede, tendo emergido aos 96 minutos.

Ao 3º dia regressámos a Ras Mohammed e foi no extremo nordeste da Península, em Ras Za' atar, que mergulhámos. Este ponto, cujo topónimo designa uma pequena erva usada como condimento no Médio Oriente, ostenta uma parede praticamente vertical com um recife bem ornamentado, que se encontra pejada de falhas e de pequenas cavernas. Mais uma vez com uma corrente muito fraca realizámos uma descida suave, tendo demorado menos de 4 minutos a chegar à profundidade de -96 metros, que tínhamos definido como máxima para esta imersão.

A estas profundidades e com visibilidades extraordinárias, afastamo-nos da parede e olhamos para a paisagem magnífica. É esmagador e muito mais do que estar enfiado bem no meio de um aquário.

Aos 10 minutos começámos então a subida, tendo finalizado a ascensão aos 87 minutos.

Insistindo na Península de Ras Mohammed, o mergulho do dia seguinte tinha como plano uma descida em Anemone City até aos -113 metros. Iniciaríamos a descompressão aos 8 minutos subindo pela parede, onde depois nos deixaríamos gentilmente transportar pela fraca corrente, cruzando o azul, até Shark Reef. Aí, à hora e meia, daríamos por terminada a imersão.

Tendo demorado 4 minutos na descida ao longo da parede, pudemos ainda assim estar à profundidade máxima o tempo suficiente para com calma (e a necessária boa visibilidade) nadar um pouco e desfrutar amplamente do cenário dramático que se dispunha perante nós.

Já na última metade da subida fomos divagando entre os grandes cardumes de xaréus-de-barbatana-azul (Caranx melapygus), pargos-de-manchas (Lutjanus bohar) e peixes-morcego (Platax teira) habituais na ponta Sul do Sinai enquanto, um pouco mais acima, alguns grupos de mergulhadores recreativos nos olhavam com perplexidade face ao equipamento que transportávamos.

Após um mergulho destes, que mais se poderia desejar do que uma longa descompressão à deriva, executada quase sem se dar por ela?

Para o último dia decidimos regressar aos recifes de Tiran, mais precisamente ao canyon de Thomas Reef, mas agora com o objectivo de o explorar até ao fundo, o qual, segundo informação recolhida, estaria a cerca de -100 metros.

Para podermos usufruir de mais tempo de fundo (que não poderia ultrapassar os 6 minutos), efectuámos uma descida bastante rápida tendo chegado à máxima profundidade em pouco mais de 2 minutos. O fundo estava afinal somente a -92.4 metros. Aparentemente a progressiva acumulação de sedimentos tem retirado profundidade ao canyon.

Este apresenta numa das zonas mais fundas uma estreita cavidade, que contudo se revela demasiado perigosa para uma penetração ocasional ou até mesmo planeada. Ficamos assim sem saber se há ou não alguma continuação.

Terminámos o mergulho aos 83 minutos, com um pouco menos de tempo e de profundidade do que os planeados. Durante a subida lenta e relaxante tivemos ainda a companhia de um possante e curioso bonito-dente-de-cão (Gymnosarda unicolor) que nos rondou insistentemente e de ocasionais lírios e xaréus-gigantes (Caranx ignobilis).

Nos diversos mergulhos foram utilizadas bi-garrafas independentes de12 litros para as misturas de fundo (Tx 13/39, Tx 12/45, Tx 11/50) e garrafas de 10 litros para misturas de viagem e descompressão (EAN36 e EAN80). As misturas foram preparadas pelo Camel Dive Club e pela Mix Unlimited.

Fotos de: J.P.Freire, F.Tulli, L.F.Coutinho, L.Fonseca e R.Menezes

Video de: Fabio Tulli


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